Você, eu, o cérebro e algumas emoções

Aflição, felicidade, paciência e ansiedade são algumas das emoções misturadas que venho sentindo de um tempo para cá. Há uma lista enorme de outras emoções que você também deve sentir a cada dia. Mas e se parássemos para refletir: Por que sentimos coisas tão aleatórias assim?

 A Clark Honors College valoriza muito o debate em espaço público e temos o chamado Common Reading Program, por isso recebi um livro da universidade antes mesmo das aulas começarem. Faz parte da cultura de muitas universidades nos Estados Unidos a sugestão de um livro ou uma série de livros para serem lidos durante as férias de verão, de modo que possam ser discutidos em grupos ou até mesmo trabalhado em aulas de áreas distintas para aguçar novas perspectivas relacionadas aos possíveis desdobramentos do assunto. Todos nós calouros da CHC devemos ler um livro para participar do fórum on-line organizado por líderes estudantis da faculdade e professores. Ao chegar no campus, no outono, os alunos se envolvem com o livro através do diálogo com outros colegas e oradores convidados, além de terem outras oportunidades de enriquecimento intelectual e pessoal. Para esse ano, a Clark Honors College escolhou o livro “The Emotional Life of Your Brain”, de Richard J. Davidson, PhD em Psicologia pela Universidade Harvard e Professor de Psicologia e Psiquiatria da Universidade de Wisconsin em Madison.

No começo eu achei que seria uma espécie de livro de auto-ajuda, mas logo o visualizei de outra forma, embora a obra não deixe de ser considerada uma ferramenta que nos ajude a potencializar melhor algumas das chamadas “dimensões emocionais”, que o autor diz compor o chamado “estilo emocional” de cada indivíduo. Logo, não sei se faria sentido desconsiderá-lo como sendo uma obra de auto-ajuda de alguma forma. O livro mostra a jornada pessoal e científica do Professor Davidson ao explorar as questões sobre a natureza cerebral das emoções, área chamada de Neurociência Afetiva — algo que ele mesmo implica no livro ser muito recente no mundo acadêmico.

Essa foi a primeira vez que eu pude ler algo relacionado intrinsecamente às emoções que sentimos, mas, que não necessariamente tratamos de fato; apenas aceitamos e encaramos com um certo nível variável de dificuldade. O livro claramente demonstra que a maneira com que reagimos às mudanças nos ambientes em que vivemos ou como respondemos a um evento pessoal trágico podem dar informações realmente impressionantes sobre como nosso cérebro trabalha. Para o autor, o cérebro trabalha de acordo com a regulação do que ele descobriu serem as dimensões de seis diferentes emoções, que possuem sua origens em bases cerebrais no córtex-frontal. Na divisão dos capítulos, o Prof. Davidson exemplifica cuidadosamente as seis bases que são resultados de anos a fio de pesquisa após confrontar as ideias Behavioristas da década de 80 que ele enfrentou em Harvard. Essas seis dimensões são:  resiliência, atitude, intuição social, autopercepção, sensibilidade ao contexto e atenção. A combinação da medida diferente de cada uma dessas seis combinações, teoricamente, nos fazem indivíduos únicos, como uma impressão digital emocional – e cognitiva.

Os extremos de cada uma dessas dimensões possuem consequências negativas. Por exemplo, ele diz que se uma pessoa é muito positiva e otimista, ela potencialmente poderá ignorar situações de perigo. Ou ainda, caso tenha a capacidade de se recuperar lentamente de traumas, pode cair no viés profundo e sombrio da depressão. Cada pessoa responde a situações da vida de forma diferente, como a neurociência afetiva tem mostrado.

Para entender melhor cada dimensão que compõe o estilo emocional de cada cérebro, listados abaixo estão descritas:

Resiliência: você geralmente consegue superar as adversidades ou sofre um colapso quando algo dá errado? Quando depara com uma dificuldade emocional, encontra determinação para seguir em frente ou se sente tão indefeso que simplesmente se rende? Se discute com sua mulher ou marido, isso estraga o resto de seu dia ou você consegue se recuperar com rapidez e deixar o desentendimento para trás? As pessoas que estão em um extremo desta dimensão têm recuperação rápida diante das adversidades. As que ficam no extremo oposto têm recuperação lenta, pois se deixam imobilizar pelas adversidades.

Atitude: você mantém alto nível de energia e empenho mesmo quando as coisas não saem como o desejado? Ou tende à descrença e ao pessimismo, pois acha difícil enxergar qualquer aspecto positivo?  Uma atitude excessivamente negativa pode acabar com sua motivação e destruir sua capacidade de sentir alegria com seus relacionamentos. Já uma atitude positiva demais afeta sua capacidade de aprender com os erros e de adiar a gratificação imediata em favor de uma recompensa maior no futuro. Otimismo em excesso impede que se avalie as situações com realismo. As pessoas em um extremo da Atitude podem ser descritas como tipos positivos. As que estão no outro extremo, como tipos negativos.

Intuição social: você consegue interpretar a linguagem corporal e o tom de voz das pessoas como quem lê um livro, deduzindo se elas querem conversar ou ficar sozinhas, se estão estressadas ou tranquilas? Ou você se sente intrigado – ou até mesmo cego – diante dos sinais que indicam os estados mentais e emocionais das pessoas? Os que ficam em um extremo desta dimensão são os tipo socialmente intuitivos. Os que ficam no outro são os tipos socialmente desnorteados.

Autopercepção: você tem consciência dos próprios pensamentos e sentimentos e está ligado nas mensagens que seu corpo lhe envia? Ou atua e reage sem saber por que faz o que faz, pois sua mente consciente tem dificuldade em enxergar seu “eu interior”? As pessoas próximas perguntam por que você nunca fica em silêncio e dizem que você parece não se dar conta do fato de estar ansioso, ciumento, impaciente ou se sentindo ameaçado? Em um extremo da Autopercepção estão as pessoas autoconscientes. No outro, as que não conhecem a si mesmas.

Sensibilidade ao contexto: você consegue captar as regras convencionais de interação social, de modo que não conta ao chefe a mesma piada obscena que contou a sua mulher ou marido? Ou fica perplexo quando as pessoas lhe dizem que seu comportamento é inadequado? Se você estiver em um extremo do estilo de Sensibilidade ao Contexto, será uma pessoa antenada. Se estiver no outro, desligada.

Atenção: você consegue filtrar distrações emocionais e se manter concentrado? Fica tão ligado no seu videogame que não percebe o que está acontecendo ao redor? Ou seus pensamentos saltam da tarefa que está fazendo para uma briga que teve pela manhã, ou para a ansiedade que sente por causa de uma apresentação que terá que fazer no trabalho? Em um extremo deste estilo estão as pessoas concentradas. No outro, as desconcentradas.

O autor narra os testes científicos realizados com humanos em seu laboratório durante os anos de pesquisa, e de como chegou a esses resultados usando a relação cérebro-mente. É interessante notar que muitas descobertas foram feitas com experimentos de base cotidiana, mas que expõem nossas emoções facilmente. No final, ele mostra que, apesar de termos pré-disposição genética na regulação das dimensões que compõe nosso estilo emocional, elas são suscetíveis às mudanças, já que nosso cérebro não é imutável, mas sim, completamente alterável pela cultura, sofrimento, conquistas, etc. Isso tudo corrobora com a ideia de plasticidade que a neurociência vem demonstrando nos últimos anos. Mas como mudar?

Resposta: meditação.

O autor descreve o encontro que teve com Dalai Lama e como aprendeu as técnicas de meditação em viagens pela Índia e pelo Sri Lanka. O Dalai Lama em 2013 foi até a University of Oregon.

Pude assistir esse vídeo sobre meditação há um tempo atrás, mas queria compartilhar com você, pois acho que tem muito a ver com a sugestão feita no livro.

Se nada mais, encontrar um pouco de clareza e ser capaz de definir o nosso próprio pensamento é um grande passo para a auto-avaliação a fim de tomar medidas para nos adaptarmos e, consequentemente, mudarmos. Talvez possamos usar as teorias no livro como algo a favor dos meios usados nas escolas ao redor do mundo, nas empresas, além de aplicar a meditação em diferentes níveis da nossa vida a fim de pensarmos, e, por fim, vivermos melhor.