72 horas desde a vitória de Trump

Em junho deste ano, enquanto estava prestes a embarcar em um voo de Seattle para Nova York, eu percebi que havia três pessoas atrás de mim vestindo uma camiseta cinza que dizia Make America Great Again (Faça América Grande Outra Vez). Desconfiado, porém, de certa forma calmo, achei meu acento do lado da janela no avião, onde sempre costumo sentar. Depois de um tempo, percebi que duas dessas pessoas sentariam do meu lado esquerdo.

Neste momento eu não pude refletir muito, pois estava ciente que o respeito à diferença era decerto uma das coisas que melhor aprendi estudando em uma universidade americana.

Durante o voo, entretanto, comecei a lembrar-me de quando participei de um protesto contra Trump na sua visita a Eugene, Oregon, onde moro, no início de maio deste ano. Junto com minha amiga paquistanesa e um outro amigo americano, lembro que presenciamos cenas que, por mais que eu já pudesse ter visto em filmes de Hollywood, eu jamais havia realmente vivenciado na vida real — pessoas com avivados discursos de ódio, várias barracas vendendo camisetas e broches com discursos sexistas e misóginos sobre Hillary Clinton e, claro, uma energia dramática de descrever aqui.

Também, naquele mesmo dia de protesto, vi pessoas vestindo camisetas e bonés vermelhos e uma delas acabou até cuspindo no chão onde estava escrito Bernie Sanders, outro candidato do partido democrata. Recordo claramente que a maioria dessas pessoas apoiando Trump neste evento era um grupo que eu raramente tinha me relacionado nos EUA — pessoas aparentemente de áreas rurais, com vestimentas mais simples, linguajar mais áspero, completamente diferente do ambiente de classe média da maioria dos campuses universitários pelo país que muitos pensam ser o verdadeiro e único perfil dos EUA.

Protestos contra Trump durante sua visita ao estado de Oregon, em maio de 2016.

Protestos contra Trump durante sua visita ao estado de Oregon, em maio de 2016.

Por mais que o intuito deste post não seja focar no aspecto político ou nas falhas do processo democrático em si, eu quero que este texto seja um desabafo das emoções das últimas 72 horas.

Nesta passeata em Oregon em maio, lembro que uma jovem moça estava discutindo com um apoiador de Trump e nós paramos de longe para assistir.

Ele falava algo assim:

— Eu não vou nem perder meu tempo para discutir política com você já é uma mulher.

Sinceramente, naquele momento, eu não sabia o que fazer. Por mais que eu estivesse incrédulo com tudo aquilo acontecendo debaixo de meus olhos, queria ainda poder continuar observando de perto.

Se ainda não bastasse, ele disse a esta mesma mulher:

— Volte para o México e lembre-se que caso Trump vença eu terei o prazer de comprar a sua passagem de volta.

Consternada, a mulher respondeu algo assim:

— Você já foi ao México? Você tem ideia de quantas coisas maravilhosas existem por lá? Você não tem vontade nem de visitar?

Ele respondeu:

— Por que eu visitaria um país que todo mundo quer deixar?

Um nó na garganta surgiu e eu só olhei para meus amigos e parecia que estávamos em um filme. Continuamos na passeata andando e somente observando tudo que estava acontecendo do lado de fora onde Trump estava fazendo um discurso.

 

Os protetastantes contra Trump seguram cartaz que diz: “Faça Oregon Grande Outra Vez: Deixe-o”

Os protetastantes contra Trump seguram cartaz que diz: “Faça Oregon Grande Outra Vez: Deixe-o”

Apesar de ser um lindo dia de primavera naquela tarde de maio, eu lembro de ter deixado o protesto me sentindo estranho. Ao chegar de volta em casa, lembro de ter conversado com meu último colega de apartamento que é do Quênia.

Quase toda noite batíamos papo assistindo as notícias do dia e sempre falávamos que Trump não iria ganhar, obviamente. O que ele queria mesmo era a grande atenção da mídia. Isso só poderia ser uma grande piada somente. Afinal, não é que até poderia ser uma grande conspiração para se autopromover em seus negócios? Nunca sabe-se os limites da política.

Seis meses depois, os resultados vieram à tona para confirmar que Trump havia ganhado na maioria dos estados e, portanto, tornando-se o futuro presidente mais rico da história dos Estados Unidos da América. Depois de uma campanha conturbada, era de imaginar-se os inúmeros problemas que se escalariam na realidade diária morando no estado do Oregon, um dos estados mais liberais e democratas dos EUA.

Protestantes demonstrando apoio a comunidade LGBTQ+ durante a visita de Trump ao Estado de Oregon

Protestantes demonstrando apoio a comunidade LGBTQ+ durante a visita de Trump ao Estado de Oregon

Protestantes demonstrando apoio a comunidade LGBTQ+ durante a visita de Trump ao Estado de Oregon

Desde a noite que ele foi anunciado como novo presidente eleito, confesso que não tem sido fácil. Vi meus amigos do Oregon, da California, do Washington e do Alaska chorarem como crianças. Vi amigos que se tornaram cidadão americanos se sentirem ameaçados, violados e até humilhados. Vi pessoas cabisbaixas caminhando no campus. Vi pessoas saindo das aulas e seguindo para protestos pacíficos no campus e na cidade. Vi apoiadores de Trump pintarem suas peles com tinta preta para ridicularizar pessoas que tanto sofrem racismo neste país. Vi mensagens de amigos no Brasil perguntando como eu estava me sentindo como estrangeiro. Vi mensagens de professores e escritórios da universidade apoiando os alunos estrangeiros e outras várias minorias.

Vi muita coisa em 72 horas que não consigo descrever tudo aqui. As notícias parecem que estão ecoando na minha cabeça e confesso que estou tentando até evitar de consumir qualquer tipo de mídia nestes últimos dias.

No dia seguinte aos resultados, não consegui ir na primeira aula para evitar sentir os dessabores que é ter que aceitar o que é inaceitável e o que atemoriza a nossa liberdade de ser e viver. Estas eleições parecem ter mostrado um lado dos EUA que sempre foi existente de certa forma na cultura divisora deste país, porém que estava escondido debaixo do tapete. Desde então, muita coisa aconteceu. Na Costa Oeste, vários protestos pacíficos propagaram-se. Meu Facebook se tornou um muro das lamentações do que parece até ser cenas de filme apocalipse em meio a um caos político. Não consigo nem imaginar como outras minorias em outros estados estão se sentindo.

Estou tentando me abster do que eu não posso mudar diretamente. Contudo, também estou tentando ser forte o suficiente para continuar me lembrando que eu vim para os Estados Unidos com um grande objetivo de seguir um sonho e para ser um cidadão global.

Estranhamente, porém, no dia seguinte a esta terça-feira, senti-me como se estivesse acordado em um outro país.

No meio daquele mesmo voo para Nova York eu senti o medo que eu achei que nunca iria acontecer depois de lembrar toda a energia que senti naquele protesto em Oregon. Eu até hesitei em falar com a aeromoça temendo que meu sotaque fosse algo que aquelas duas pessoas sentadas do meu lado poderiam me ofender.

Naquele momento eu não tinha a certeza de nada que poderia acontecer, mas olhando da janela do avião eu continuei com a certeza que todas as divisões que criamos no mundo provem do nosso fracasso em reconhecer que somos todos iguais e que, principalmente, precisamos das nossas multiculturalidade e diversidades de opinião como forma de alcançar empatia para viver em paz e harmonia um com outro. Só assim seremos realmente capazes de entender que todos estamos aqui somente de passagem e que, acima de tudo, reconhecer que as diferenças são poderosamente capazes de melhor unir o que há em cada um de nós.