O lado bom da traição

Dentre todas as grandes dores capazes de profundamente transformarmo-nos, a traição é aquela que parece ser uma das mais avassaladoras contra nossa sensibilidade e, assim, contra nossa verdadeira face, livre do mundo das aparências. Se não bastasse o seu poder em causar sangramento e provocar dor, querendo ou não, ela encontra um meio mesquinho de prevalecer presente, ainda que a nossa atinada resiliência a interprete de forma ligeiramente diferente ao longo do nosso crescer. Ela parece incansavelmente permutar entre os leitos aconchegantes de conforto do exagerado amor ilusório e das conhecidas paredes frias, mofinas e soturnas da raiva.

Indigna traição, diriam os mais aguentados; no ato, o vazio por si só percorrre os caminhos que antes eram capazes de guiar as esperanças, embora não sejam mais, no mínimo, fidedignas. Insulto! Digna mesmo é a dona esperança, diriam os possuidores de superior sagacidade—isso sim é arrebatador! Ela, por seus traços despojados e ao mesmo tempo elegantes, nos massacra pelo mesmo efeito que Cartola cantarolava àquele moinho-triturador-de-sonhos que, por sua natureza em si, fosse capaz de derrubarmo-nos no abismo que nós mesmos cavamos debaixo de nossos pés. Por efeito, muitas vezes traímos a nós mesmos.

A incerteza proveniente da falta de confiança é uma das poucas cartas na manga que sempre podemos usar quando o jogo está prestes a terminar, embora o jogo em si já possa ter tido um trágico e silencioso fim. A traição, ainda assim, é uma grande maravilha da experiência humana como bravura de transformação tanto para os traídos como para os traidores, já que, para ambos, a noção de esperança torna-se relativa; contudo, isso não é o mesmo com a dor causada e sentida por aqueles que, um dia, aparentemente compartilharam o mesmo amor. O destino, embora ninguém saiba, há de ser fadado diferentemente, eu penso.

A nossa individualidade e senso de totalidade precisam, em algum ponto ou outro na transição da juventude para a vida adulta, se findarem na premissa básica de que somos vulneráveis a tudo e a todos. Entender isso é um remédio necessário para aceitar o que não queremos aceitar. Subestimar esta lei da natureza é duvidar do que é a comum a todos nós: a traição, a famosa conhecida de todos e aquela outra, talvez não tão afamada por seu caráter delituoso, a esperança.

Sem vento, contudo, o moinho da vida resumir-se-ia solenemente à nossa vaidade e aos nosso olhos calejados pela impotência face da mudança. Portanto, o vento em si é traiçoeiro, apesar de indispensável. Até nas noites mais quentes como o daquele em que o aconchego é sinônimo do verdeiro ato de amar, ele sopra as folhas secas com a esperança de permitir, depois da frieza e secura, o nascer renovador das folhas, de caminhos claros e, no fim da passagem, novas traições. Não há um escape, mas sim a certeza de que sempre haverá um par perfeito para trair e, não obstante, ser traído, já que basta somente um para que ambos ocorram. A história não é a mesma pra quem sofre, contudo.

Assim, esperança e traição são irmãs e, quiçá, amantes. Juntas, elas quebram a nossa vaidade em prever o que supomos ser capazes. Elas são o que nos mudam, embora muitas vezes por meio da aceitação de que, incontrolavelmente, somos atores, porém ainda mais vítimas daquilo que acreditamos ser o caminho ideal para a plenitude de entender que ser traído faz parte do caminho confiável para mudarmos. Somente desta forma podemos nos compreender melhor e continuar na busca pelos melhores ventos em rumo a mais justas esperanças disfarçadas pelo toque da traição.