Hora de gritar

Os gritos que nos obrigam a ficarmos inertes na caixa ilusória de molde bem-acabado e pouco questionável que moramos vem de longe, mas de tão longe que raramente paramos para pensar: e se as coisas não forem o que parecem? Ora bolas, as quinas bem-feitas dos cantos da caixa e a tinta pálida das paredes do esquecimento nunca provaram o contrário, não é? Pois veja só: quanto mais escutamos aos gritos, mais caímos na consciência de que somos o que realmente somos porque, essencialmente, um dia ficamos surdos – mesmo que momentaneamente. O tempo, neste caso, é o encanto perfeito que pode nos guiar para ao nosso próprio encontro, inóspito de qualquer limitação que possa existir entre o que somos e sentimos. O problema é: nós nascemos surdos ou os gritos nos ensurdecem? Mas o nosso ego de achar que tudo pode é o que menos percebe os ecos dos gritos constantes. Se um grito vier em nossa direção, a resposta que temos na beira do pensamento é simples: feche a janela, feche a tampa da caixa ou feche qualquer feixe. O importante é fechar. Tudo da natureza de proteção e, talvez, daquela territorialidade animal de proteção para, mais uma vez, renovar o ego para dizer: salvamos o dia e ainda por cima garantimos a sobrevivência. Pena que esses gritos não escolhem os melhores corredores para se propagarem. Talvez seja esta razão pela qual estou aqui gritando.