Pisar em Zanzibar

No horizonte

Longe mas não distante

Vejo aquilo que a cegueira quase me impede

O verde das águas e seus variados tons

Trazem até mim os mais serenos sons

 

Junto com sons e tons vem a brisa

Morna das águas agitadas do Índico

Que refresca o tempero da história

Para acalmar as especiarias que brotam em Zanzibar

E contornar o longo rosto Africano que beija o mar

 

Com as várias cores e cheiros

Do amarelo ao vermelho

Do apimentado ao adocicado

Aqui estrangeiro sou

Sem nem sequer saber o que já passou

 

Mas é com os pés que sinto as marcas do passado

É pelo andar nos corais silenciosos gravados nas rochas

Com todos tamanhos e formas

Que percebo que aqui

Eu quem sou o atrasado

 

Como uma mensagem do que passou

Piso só para pensar na pequenitude do nosso tempo

Diante daquilo que passou e não senti


O sentir de tudo aquilo que quase nunca sinto

N’onde nunca pensei estar para pisar

Esculpe em mim o desejo de viver mais

Ou de viver menos

Para sentir mais

E talvez em sentir o que quase nunca sinto

Pisando aqui em Zanzibar

ou

em qualquer outro lugar.

 

 

 

 

 

Hora de gritar

Os gritos que nos obrigam a ficarmos inertes na caixa ilusória de molde bem-acabado e pouco questionável que moramos vem de longe, mas de tão longe que raramente paramos para pensar: e se as coisas não forem o que parecem? Ora bolas, as quinas bem-feitas dos cantos da caixa e a tinta pálida das paredes do esquecimento nunca provaram o contrário, não é? Pois veja só: quanto mais escutamos aos gritos, mais caímos na consciência de que somos o que realmente somos porque, essencialmente, um dia ficamos surdos – mesmo que momentaneamente. O tempo, neste caso, é o encanto perfeito que pode nos guiar para ao nosso próprio encontro, inóspito de qualquer limitação que possa existir entre o que somos e sentimos. O problema é: nós nascemos surdos ou os gritos nos ensurdecem? Mas o nosso ego de achar que tudo pode é o que menos percebe os ecos dos gritos constantes. Se um grito vier em nossa direção, a resposta que temos na beira do pensamento é simples: feche a janela, feche a tampa da caixa ou feche qualquer feixe. O importante é fechar. Tudo da natureza de proteção e, talvez, daquela territorialidade animal de proteção para, mais uma vez, renovar o ego para dizer: salvamos o dia e ainda por cima garantimos a sobrevivência. Pena que esses gritos não escolhem os melhores corredores para se propagarem. Talvez seja esta razão pela qual estou aqui gritando.

O lado bom da traição

Dentre todas as grandes dores capazes de profundamente transformarmo-nos, a traição é aquela que parece ser uma das mais avassaladoras contra nossa sensibilidade e, assim, contra nossa verdadeira face, livre do mundo das aparências. Se não bastasse o seu poder em causar sangramento e provocar dor, querendo ou não, ela encontra um meio mesquinho de prevalecer presente, ainda que a nossa atinada resiliência a interprete de forma ligeiramente diferente ao longo do nosso crescer. Ela parece incansavelmente permutar entre os leitos aconchegantes de conforto do exagerado amor ilusório e das conhecidas paredes frias, mofinas e soturnas da raiva.

Indigna traição, diriam os mais aguentados; no ato, o vazio por si só percorrre os caminhos que antes eram capazes de guiar as esperanças, embora não sejam mais, no mínimo, fidedignas. Insulto! Digna mesmo é a dona esperança, diriam os possuidores de superior sagacidade—isso sim é arrebatador! Ela, por seus traços despojados e ao mesmo tempo elegantes, nos massacra pelo mesmo efeito que Cartola cantarolava àquele moinho-triturador-de-sonhos que, por sua natureza em si, fosse capaz de derrubarmo-nos no abismo que nós mesmos cavamos debaixo de nossos pés. Por efeito, muitas vezes traímos a nós mesmos.

A incerteza proveniente da falta de confiança é uma das poucas cartas na manga que sempre podemos usar quando o jogo está prestes a terminar, embora o jogo em si já possa ter tido um trágico e silencioso fim. A traição, ainda assim, é uma grande maravilha da experiência humana como bravura de transformação tanto para os traídos como para os traidores, já que, para ambos, a noção de esperança torna-se relativa; contudo, isso não é o mesmo com a dor causada e sentida por aqueles que, um dia, aparentemente compartilharam o mesmo amor. O destino, embora ninguém saiba, há de ser fadado diferentemente, eu penso.

A nossa individualidade e senso de totalidade precisam, em algum ponto ou outro na transição da juventude para a vida adulta, se findarem na premissa básica de que somos vulneráveis a tudo e a todos. Entender isso é um remédio necessário para aceitar o que não queremos aceitar. Subestimar esta lei da natureza é duvidar do que é a comum a todos nós: a traição, a famosa conhecida de todos e aquela outra, talvez não tão afamada por seu caráter delituoso, a esperança.

Sem vento, contudo, o moinho da vida resumir-se-ia solenemente à nossa vaidade e aos nosso olhos calejados pela impotência face da mudança. Portanto, o vento em si é traiçoeiro, apesar de indispensável. Até nas noites mais quentes como o daquele em que o aconchego é sinônimo do verdeiro ato de amar, ele sopra as folhas secas com a esperança de permitir, depois da frieza e secura, o nascer renovador das folhas, de caminhos claros e, no fim da passagem, novas traições. Não há um escape, mas sim a certeza de que sempre haverá um par perfeito para trair e, não obstante, ser traído, já que basta somente um para que ambos ocorram. A história não é a mesma pra quem sofre, contudo.

Assim, esperança e traição são irmãs e, quiçá, amantes. Juntas, elas quebram a nossa vaidade em prever o que supomos ser capazes. Elas são o que nos mudam, embora muitas vezes por meio da aceitação de que, incontrolavelmente, somos atores, porém ainda mais vítimas daquilo que acreditamos ser o caminho ideal para a plenitude de entender que ser traído faz parte do caminho confiável para mudarmos. Somente desta forma podemos nos compreender melhor e continuar na busca pelos melhores ventos em rumo a mais justas esperanças disfarçadas pelo toque da traição.

Caixinha de Palavras

Perdi-me nas palavras que um dia saíram de mim.

Se antes eu as jorrava com gosto, hoje eu as preservo à sete chaves. Não por medo algum, mas simplesmente por preguiça e zelo—mas eu prefiro culpar a dona preguiça. Aliás, quem não gosta de ser um pouco preguiçoso de vez em quando?

Talvez a preguiça seja a saída mais óbvia para aqueles que amam qualquer coisa com demasiada intensidade. Amar, neste caso, cansa. Poderiam as razões do amor serem as verdadeiras causas de preguiça? Dar preguiça só de pensar.

Mas, no mundo das palavras—das genéricas às mais elegantes—penso que não deveria existir tanta preguiça se não somente para disfarçar o medo inato que sentimos em usá-las.

O tempo continua, contudo, provar que não devo guardar as palavras simplesmente pela razão destas serem tesouros e, como tal, terem duas opções fulminantes: meramente para enterrar e marcar num mapa qualquer, ou para usar pro nosso próprio benefício.


Vagarosamente percebo que o mapa do tesouro para as palavras perdidas que eu escrevera se perdeu há muito—ou talvez eu não mais reconheça por onde me meti.

Talvez eu só esteja com preguiça para encontrar um novo tesouro que eu mesmo escondi.

Então como posso saber?

Incerteza do brasileiro

Brasil imenso, Brasil intenso

Brasil, meu amor.

A distância parece que nos aproxima

Ao mesmo tempo que nos causa rancor

pela dor do passado e medo do presente sem cor.

Saudade minha que contamina com a solidão de morar tão longe

E que esconde o que pretendo ser

Mas não entender faz parte da experiência em ser brasileiro.

Ser brasileiro, o que é ser?

Gostamos de entender coisas além do samba e futebol

ou pelo menos tentamos para não desistir de ser quem realmente somos

Mas o entendimento de ser brasileiro

É traiçoeiro

vai e vem com as ondas de Copacabana

e desafia a nossa natureza humana.

Ondas essas que

são tão maleáveis ao esquecimento que tudo um dia nos foi

tomado

transformado

usurpado

e até idolatrado.

Brasil, entre eu e você

Há um vazio e a realização

de que para ser brasileiro é preciso entender

o que realmente somos

de corpo e alma de Fortaleza à São Paulo

para então brilhar assim como o Cruzeiro do Sul com amor

E perceber que nosso tamanho e complicação

São as verdadeiras fontes de incerteza para o que

somos

fomos

E seremos

com ou sem rancor

com ou sem dor

com ou sem cor

sempre seremos.

Nosso Brasil é brasileiro?

Ah, Brasil… Tu és mesmo um lugar curioso. Talvez seja mesmo “um sonho intenso, um raio vívido de amor e de esperança,” como diz nosso hino. Esperança? Sempre. Aliás, Deus é Brasileiro, não é? Um não existe sem o outro, oras! Pergunto-me então como podemos ser um lugar tão amado e odiado ao mesmo tempo. O ditado brasileiro dos anos 70 conhecido por é “8 ou 80” consegue ser os dois ao mesmo tempo no Brasil de agora.

“Brasil, um país tropical abençoado por deus e bonito por natureza, mas que beleza!” O país da maior parada gay no mundo, mas onde também se assassina mais LGBT do que em qualquer outro lugar do planeta. Como conseguimos ser considerado por muitos o melhor lugar para ser feliz e, por outros, talvez um lugar com uma confusa realidade injusta e ilusória de alguns dias de carnaval que sempre acabam na bendita quarta de cinzas? Espero mesmo é que possamos renascer das cinzas depois de tanta mixórdia; porém, desta vez, temos que ser mais fortes.

Estão enganados os que pensam que morar em outro país alivia a realidade até nos termos mais egoístas possíveis—não alivia, não.

É ser estrangeiro duas vezes.

Sempre tem um fulano que vem com um sorriso e diz: “Wow, você é do Brasil”. Dói porque sei que ser do Brasil é sempre sinônimo de coisas boas (e assim deveria ser para todo lugar em um mundo ideal), mas não é sempre que consigo manter o mesmo entusiasmo depois de tanta decepção.

Entretanto, confesso que tento, tento e tento. Em todos os países que fui, ser brasileiro sempre me ajudou a fazer novos amigos—é algo “so cool”, como diriam os gringos. É da terra adorada em outras mil que estão as pessoas que mais amo e onde se fala a língua da minha alma. Mas, antes de tudo, acho que amor e esperança precisam assumir seus verdadeiros valores dentro de nós antes de começarmos imaginar que tudo se resolva, sendo Deus brasileiro ou não.

E eu achando que amor e esperança sempre eram abundantes dentro da nossa gente brasileira. Pelo menos estas são algumas das coisas que me dão forças para continuar… A chamada velha “esperança”, se preferir.

Um olhar faminto no metrô

O que eu quero tentar escrever aqui não é para parecer um revoltado social, um utópico idiota ou até mesmo um socialista que só fala asneira e não faz nada para mudar. Não tenho estado matutando ultimamente por diversas razões. Entretanto, hoje aconteceu algo comigo que realmente foi capaz de me levar a refletir sobre coisas que eu venho observando nos útlimos tempos, porém que até então não tinham tomado minha atenção... não sei o porquê. Hoje no metrô voltando para casa, havia um mendigo suplicando por moedas ou algum outro tipo de ajuda para custear seu almoço. Eu estava ouvindo música em meu iPod e no começo nem sequer me importei com o cara. Alguns minutos depois eu passei a observá-lo mais atentamente. Vi desde seus pés descalços e sujos, passando pelas suas mãos grossas e pretas e indo até sua barba e cabelos imundos. Infelizmente sua aparência era asquerosa! Analisei seu olhar triste, sua coluna curvada e seus ombros cansados. Por um instante eu comecei a imaginar quantas pessoas passam por essa mesma situação e quantas vidas passam por elas sem sequer dar mínima (ou devida) atenção. Às vezes isso pode até ser fruto de um passado sórdido, somado a eventos inesperados que por ventura tenham levado tais indivíduos à criminalidade e até o universo das drogas ou qualquer outra coisa. Os julgamos como excluídos, nojentos e que somente vivem tal realidade pois são dignos de merecimento. O quê? Agora pergunto-me o porquê do destino ser tão atroz com seres humanos assim. Sim, eles ainda são humanos... Sentem frio, fome e sede. Além disso choram e também devem sentir falta de uma cama, um lençol limpo, uma casa para morar, etc. Muitas pessoas não valorizam o básico e modesto enquanto existem seres em tais condições. Vejo-me agora refletindo em como podemos ajudar a mudar essa situação e como devemos valorizar ainda mais as coisas simples que temos em nossas vidas. Isso tudo pode parecer uma insignificância aos olhares imediatistas da maioria, todavia só são algumas de minhas divagações que estão ocupando meus pensamentos nesse instante. Acabo que por terminar como hipócrita e um tanto que inútil por dizer que isso tudo é somente um desabafo e isso tudo isso irá perdurar-se por ainda muito tempo.